Empreender em Portugal: imigrantes brasileiras contam seus desafios

Atualizado: 11 de Dez de 2020

As mulheres brasileiras são a maioria dos imigrantes que arriscam empreender em Portugal. Não é fácil, mas elas superam com graça esse desafio.

Empreender requer coragem, planejamento e muita persistência. Agora, some-se a isso, a dificuldade de empreender em um país que não conhece. Pois bem, mesmo com todas essas barreiras, muitas brasileiras resolveram empreender em Portugal, seja por um sonho, uma necessidade ou até mesmo o desenvolvimento de um hobby.


Minha trajetória como empreendedora

Eu mesma já passei pelo desafio de empreender. Comecei por um hobby, o de fazer cozinhar. Fiz alguns bolos para amigos, mas acabei me dedicando ao Delícia de Cookie. Não foi fácil, investi em uma food bike, em site, em Instagram, em máquina de cartão. Mas vi que era preciso fazer muito pra dar algum resultado financeiro bom, acabei desistindo e foquei na minha carreira profissional como especialista em comunicação mesmo.


Em 2017, a agência em que eu trabalhava fechou e me vi com potenciais clientes que precisavam de ajuda. Por isso, eu e uma amiga e também colega de trabalho criamos a Humana Comunicação. Depois da mudança para Portugal, os clientes não gostaram de serem atendidos remotamente (hoje a pandemia veio ensinar essa lição) e acabamos fechando também.


Hoje, depois de muito procurar emprego na minha área em Portugal, veio a calhar o convite de uma amiga para ser sua sócia em uma nova agência de comunicação. Criamos então a in-flua, especializada em branding, relações públicas e digital, que atende clientes no Brasil e em Portugal.


Mulheres, uni-vos!

De acordo, com o Alto Comissariado para as Migrações (ACM), as mulheres imigrantes se destacam quando o assunto é empreender em Portugal. E as brasileiras foram maioria nos cursos e workshops de orientação para pequenos negócios de imigrantes, promovido pelo Gabinete de Apoio ao Empreendedor Migrante.

Os negócios variam de serviços a produtos, como fabricação de doces e comidas típicas brasileiras. O ano de 2019 foi o ano em que mais tiveram novos negócios de imigrantes em Portugal. E para a grande surpresa, muitos ainda foram constituídos no primeiro semestre deste ano, em plena pandemia. Como é o caso de muitas brasileiras imigrantes que entrevistei pelo Instagram.


Mas antes de contar a história dessas mulheres incríveis, vou dar um resuminho da minha trajetória como empreendedora.


Marcas sustentáveis


A BeeCool nasceu de uma mudança de hábitos da Cristiane. Durante a pandemia, ela começou a repensar seu consumo e colocou em prática, depois de muito estudo, a fabricação de seus próprios sabonetes, shampoos, cremes e panos encerados (feitos com cera de abelha para substituir o tradicional papel filme). Cristiane tem seus receios de não ser respeitada como pelo seu gênero ou raça, luta para conseguir a certificação de seus sabonetes em Portugal, mas segue na luta para criar seus filhos com mais conforto e segurança.



A pandemia também foi momento decisivo para a Sofia, mãe do Salvador. Moradora da de Funchal, na Ilha da Madeira, ela estava desempregada desde 2018 e resolveu colocar a mão na massa e apostar na produção de produtos alimentares 100% veganos, 0% açúcares refinados, 0% lactose e com opções 0% glúten, todos orgânicos. Surgiu assim O Mundo do Salvador. Seu maior desafio é conciliar sua decisão de empreender em Portugal com a maternidade recente.



Outra marca que segue a linha do sustentável, é a Ōchre. Recém-criada pela Rafaela, a marca não é apenas mais uma de acessórios e joias em prata, ela veio para abraçar toda uma comunidade de mulheres e ser um espaço de troca e partilha de tudo o que envolve o universo feminino. A Rafaela se preocupa em não usar embalagens plásticas em seus produtos e tem o cuidado de escolher seus fornecedores com base em dois critérios: que seja uma empresa criada por mulheres e/ou ser local de Portugal.


Quitutes

Sempre somos pegos pelo estômago e a Claras em Neve tem aquele Instagram de dar água na boca. A Clara, claro, também viu seu negócio surgir junto com a pandemia. Sua formação em Gestão e Produção em Confeitaria, em Lisboa, terminou bem no início de março, quando ela teria um emprego garantido, mas a pandemia, chegou chegando. Clara não desistiu de empreender em Portugal e, junto com um colega de curso, começaram a Claras em Neve. Seu maior desafio foi o fator covid: "Por mais que tudo estivesse planilhado, não há como saber como o mercado vai reagir a cada mudança que passamos". Hoje, sua empresa ganhou um concurso de startups em Amadora e está dentro de uma incubadora com cozinha industrial e tudo! =)



A Camila também viu seu negócio nascer com a pandemia. Depois que perdeu o emprego e suas buscas não resultaram em nada, a Camila apostou no que gosta de fazer e lançou o Pão de Queijo Bão de Mila. Seus produtos são bem artesanais, mas feitos com amor e carinho. Por mais que já esteja há 4 anos e meio aqui, empreender em Portugal não é fácil. Ela ainda pensa nos tipos de abordagem que pode usar com os clientes para que não sofra preconceito, como já sofreu nesse tempo aqui. Hoje, um de seus maiores medos é o peso de ser imigrante e da luta diária de sobrevivência sem uma rede de apoio.


A Natália já era empreendedora no Brasil, mas seu marido recebeu uma proposta para vir trabalhar em Portugal e teve que iniciar seu negócio do zero. Aterrissou junto com a pandemia, mas com a chegada do Natal viu uma oportunidade de retomar o que fazia no Brasil, assim lançou a Ganati Doces PT. Como forma de divulgar seu trabalho resolveu distribuir bolachas decoradas na vizinhança, mas foi recebida com desconfiança pelos portugueses que perguntavam se era alguma pegadinha a distribuição gratuita de doces. "No Brasil, as pessoas ficariam felizes em receber algum mimo, pelo menos a maioria, e o retorno é quase certeza, mas aqui é outra cultura", conta.


Artesanato


A Patrícia também já sofreu preconceitos, mas não por ser imigrante, mas sim pela sua idade. Considerada "velha" para o mercado de trabalho, não conseguiu mais emprego depois que foi demitida aos 49 anos. Depois de ter superado a depressão que veio após sua demissão, Patrícia resolveu montar um ateliê de artesanato. Engatou em trabalhos voluntários e hoje dá palestras sobre empreendedorismo aos 50 anos. Chegou em março em Portugal com todo o arsenal de seu ateliê: Criações da Pat. "Estou com 54 anos e apenas começando", conta.



É ao artesanato que se dedica também a Emanuelle, que começou a fazer crochê durante a pandemia e decidiu que era hora de empreender em Portugal. Apostou nos amigurumis, que são bichinhos e personagens feitos de crochê, e abriu a Caiu na Teia. Seu maior desafio de empreender em Portugal é entender como o mercado português funciona. "Empreender já é, por si só, assumir um risco de começar algo novo e empreender fora do país é uma dificuldade maior ainda, já que precisamos alcançar uma conexão muito maior", conta Emanuelle, que possui o receio de todo empreendedor: não conseguir a independência com seu negócio.


Outros talentos

A Yasmin se encantou por Portugal em sua primeira viagem por aqui, trabalhou dois turnos, planejou, juntou dinheiro e tirou o visto para empreendedores (D2). Ela é redatora e estrategista de conteúdo e se aliou ao marido, que é designer, para montar uma microagência, que atende clientes brasileiros e portugueses. No início, ela ficou preocupada que os portugueses achassem que ela não fosse capaz de escrever no português de Portugal. "Demorei até conseguir as primeiras oportunidades, mas daqui pra frente sejam só vitórias", conta sobre seus desafios de empreender em Portugal.


Se não fosse a pandemia, hoje, a Alana seria controladora de tráfego aéreo em Portugal. Ela mudou-se da Itália para cá depois de passar em um concurso, mas as coisas não saíram do jeito que planejou. Com a chegada da pandemia, teve que se reinventar e viu uma outra paixão virar oportunidade. Assim, ingressou na área da beleza. Hoje, é maquiadora e também oferece cursos de maquiagem.



Quer empreender em Portugal, mas não sabe por onde começar?


O Gabinete de Apoio ao Empreendedor Migrante oferece cursos e atendimento especializado para quem quer empreender em Portugal por meio de seu Projeto de Promoção ao Empreendedor Imigrante. Desde 2009, imigrantes podem contar com auxílio na estruturação e implementação de uma ideia de negócio.


Além disso, o apoio especializado aos imigrantes empreendedores tem como objetivo orientar o imigrante em todas as fases do negócio, desde o planejamento até a implementação.


O Gabinete também organiza workshops e encontros de empreendedores, bem como disponibiliza uma loja pop-up para que eles façam suas primeiras vendas.


Se você quer empreender em Portugal, já sabe por onde começar. Mãos à obra e boa sorte! 🍀



Por Camila Ciberi para @quesejaportugal

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