O colapso do sistema de saúde em Portugal

Atualizado: Set 22

Um sistema sobrecarregado desde antes da pandemia, agora se vê com 3 milhões de consultas em atraso e sem propostas de contratação de mais médicos

O Sistema de Saúde Nacional (SNS) português em algum momento deve ter sido bom. A saúde pública aqui é referência em relação à particular, os problemas mais graves são tratados no público e a maioria da população utiliza esse serviço.


Quer dizer, utilizava.


Há alguns anos, o SNS sofre com o fluxo imigratório e não contava com a quantidade de imigrantes que escolheriam Portugal para morar. Não contava, mas também não se preparou ou, pelo menos, não desenvolveu sequer um planejamento para que hospitais e centros de saúde não ficassem sobrecarregados.


Hoje, eu senti na pele essa deficiência e vou contar um pouco mais sobre como este é um tema muito preocupante.


Para quem ainda não conhece como funciona a saúde pública aqui em Portugal, sugiro entender melhor antes, clicando aqui.


Um resumo rápido

Muita gente chega em Portugal com a ilusão de que o SNS é um SUS melhorado, até é. Mas tudo que se faz aqui pelo público, você precisa pagar a chamada taxa moderadora. Essa taxa é uma coparticipação. O governo paga uma parte e você colabora um pouquinho.


Então, uma consulta com um médico de família custa 5€, um exame de sangue ou raio-X custam 2,50€ e a entrada na emergência do hospital paga-se 16€.


São valores relativamente baratos para uma boa saúde.


Médico de família

Muito dizia-se do tal médico de família que existe aqui em Portugal e de fato ele existe, somente em alguns locais.


Hoje, é muito difícil ser atribuído para um médico de família, que é aquele médico geral que vai cuidar da saúde de todos na sua casa e também te encaminhar para um médico especialista, caso ele julgue necessário. Mas, a princípio, todos os exames e consultas de rotina são feitos com ele.


Um dos principais documentos que você precisa ter para vir para Portugal é o PB4.

Veja porque ele é tão importante!


Há relatos de pessoas que depois de 3 anos aqui ainda não possuem um médico de família. Por outro lado, conheço pessoas em Lisboa que foram atribuídas a um no primeiro mês morando ali.


No meu Centro de Saúde, que é onde você faz a sua inscrição do número de utente mediante o seu endereço residencial, não tem. A senhora da triagem até ri da sua cara quando você pergunta sobre um.

Atrasos

Quando tive o quadro de alergias, fui algumas vezes na urgência do Hospital de Cascais. Até que o médico geral fez o meu encaminhamento para um especialista em dermatologia. Quando isso acontece, chega uma carta na sua casa com a data da consulta.


As alergias foram apenas um dos problemas físicos que enfrentei quando cheguei aqui. Contei um pouco mais sobre eles aqui.


Isso foi em setembro, a carta chegou em novembro, com a consulta agendada apenas para o final do mês.


E isso foi pouco, sempre via reportagens na TV sobre pessoas que estavam na fila de cirurgias há 2 anos.


Isso tudo, antes da pandemia.


Há um quadro com o tempo aproximado de atendimento para cada especialidade de acordo com a sua localidade. Eu coloquei o Hospital de Cascais como referência, já que não encontrei meu Centro de Saúde.

Para uma consulta ginecológica, a espera é de 145 dias, que são quase 5 meses.


Esse quadro é de agora, um momento em que muitas consultas foram desmarcadas e sem previsão de remarcação.


Centros de Saúde

Os Centros de Saúde aqui funcionam como um posto de saúde. A cada freguesia ou a cada duas freguesias existe um. É verdade que eles não dão conta de atender a todos os moradores, ainda mais depois da pandemia, em que muitos médicos foram afastados por conta do covid e o governo simplesmente não contratou mais.


Fizeram o contrário, congelaram os salários dos médicos.


Já sabendo da dessa dificuldade, fui hoje ao Centro de Saúde da Parede testar uma área da saúde pública conhecida como Planeamento Familiar.

Essa área consiste no atendimento gratuito em um dia da semana para mulheres e seus exames preventivos, como papanicolau, ultrassonografia (que aqui se chama ecografia), mamografia etc.


Então, basta você ir neste dia, mesmo sem ter médico de família, passar pela consulta e realizar os exames, tudo gratuitamente.


Eles entendem que a prevenção é mais barata do que tratar a doença, o que claramente é verdade.


Cheguei lá e não havia ninguém. Uma senhora gestante estava na frente do atendimento, brigando com a senhora da triagem pois não haviam avisado que sua consulta foi remarcada e ela já estava no oitavo mês.


Parênteses aqui: só fui presencialmente porque eles não atendem ao telefone. DE JEITO NENHUM.


Eu, toda inocente, fui perguntar se eles estavam realizando as consultas do planeamento familiar:

-Não. - respondeu a senhora da triagem.

-Há então alguma previsão de retornarem, senhora? - questionei.

-Não. Não sabemos quando haverá médicos disponíveis neste centro de saúde.


OU SEJA, não havia consultas em geral. Todas estavam paralisadas, apenas atendiam gestantes ou crianças.


Sei de pessoas que mantiveram o atendimento de consultas já agendadas anteriormente, mas não sei de nenhum caso que conseguiu consultas novas.


Quer morar em Portugal, mas não tem nacionalidade?

Saiba quais os vistos que você pode solicitar.


Colapso

Durante a pandemia, muitas consultas foram canceladas, algumas remarcadas, outras feitas por vídeo ou telefone. A realidade é que muita gente ficou sem atendimento.


A Ministra da Saúde diz que "apenas" 1,1 milhões de pessoas ficaram sem consultas. Já a Ordem dos Médicos estima que esse número chegue a 3 milhões.


São 3 milhões de consultas em atraso. Agora, imagine o tempo que será necessário para que tudo volte ao normal. Se voltar.


O fluxo imigratório deve continuar, os portugueses e residentes vão precisar de consultas como antes e ainda é preciso dar conta destes 3 milhões!!! Isso tudo sem contratar mais médicos!


Nada se fala sobre isso, em todo o tempo que moro aqui, não há um projeto sequer para melhorar o SNS.

ATUALIZAÇÃO

Depois que escrevi o post, enviaram-me uma matéria sobre a contratação de 220 médicos para os hospitais do país. Ótima notícia, já um avanço e tanto.


Segundo o Governo, serão 435 postos de trabalho na especialidade de Medicina Geral e Familiar. São: 216 na região de Lisboa e Vale do Tejo, 86 no Norte, 64 no Centro, 34 no Alentejo e 35 no Algarve. Para saber mais, clique aqui.


Fico feliz, mas acredito não ser o suficiente, apesar de que a maioria das pessoas com quem conversei tiveram uma boa experiência com a saúde por aqui. Eu quando fui à urgência também tive.


Seguro Saúde

Não é à toa que os seguros saúde não param de crescer por aqui. Graças a Deus, sempre tive condições de pagar por um plano de saúde no Brasil e optei por fazer um quando mudamos, pois já havia pesquisado sobre essa deficiência na saúde pública.


Por mais que seja possível usar a saúde pública por aqui, tenha em mente que, em algum momento, você pode precisar de um ortopedista porque tem uma inflamação no tendão e essa consulta pode demorar 3 meses, a não ser que você passe pela emergência, no hospital.


Há vários tipos de seguro saúde, assim como preços. Eles também cobram coparticipação e você deve ficar atento para elas, assim como para o peso de um seguro no seu orçamento familiar.


Os seguros saúde aqui também não são como no Brasil.

Saiba como eles funcionam.


Por Camila Ciberi para @quesejaportugal


* Imagens: banco do Wix.

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